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sexta-feira, 9 de março de 2012

A Primeira Pedra


O universo chamado de BDSM é cercado de questionamentos.
Se tais questões aparecessem apenas de fora pra dentro até que seria bastante óbvio, pois trata-se de hábitos e costumes pouco comuns praticados por um grupo seleto de pessoas. Porém, existem algumas questões que insistem em sobreviver dentro do próprio nicho.
E uma delas, a qual me referir em alguns artigos aqui, dá conta da escolha da submissão.
Nada é tão complicado de entender como a submissão.
Tudo isso porque existem vários fatores que compõem a servidão sexual em se tratando de fantasias e desejos. A submissão pode ter dois caminhos: da pura servidão ou com doses de masoquismo. Porque existem pessoas submissas que não aceitam a dor, ou melhor, não precisam da dor pra encontrar prazer. Da mesma forma em que outras aceitam a dor e suportam castigos como forma de oferecer aos seus parceiros (sádicos) uma prova de dedicação e entrega total.
É complicado isso. Um autêntico coquetel de gostos, embora signifiquem algo bastante comum. E por se submeter sexualmente aos caprichos de quem procura por isso no universo BDSM, as pessoas com tendências submissas não podem sofrer preconceitos de nenhuma espécie, porque isso faz parte do tesão e tal comportamento não se faz pressente em suas atitudes fora da fantasia.
É preciso parar com esse papo de que quem é submisso – ou submissa – tem ares de subalterno. Estamos diante de uma tendência sexual apenas, nada mais que isso. É hora de separar bem as coisas e entender de uma vez por todas que a submissão se dá em busca do prazer somente. Já vi gente falando e escrevendo besteiras na rede a esse respeito.
Aliás, como tem gente sem noção criando espaços onde supostamente seriam abordados temas de BDSM. Valha-me! Salta aos olhos frases esquisitas invocando até paradigmas comparando pessoas fetichistas a lixo social. Santa ignorância cretina...
Noutro dia alguém vociferou que a pessoa submissa gosta de ser usada. Sim, gosta é verdade, mas numa relação e de preferência bem sólida, o que não significa que este termo “usada” seja algo conotativo a passar de mão em mão qual garrafa de cerveja em boteco. Se a pessoa quem ela se entrega a usar garanto que ela ficará plenamente satisfeita.
É bem verdade que admitindo o BDSM como uma imensa vidraça eu jamais apostaria em dizer que alguém em se sentindo ofendido com tudo isso atirasse a primeira pedra. Porque a nossa cabeça já está cheia de pedradas que nem cabe mais um galo protuberante. Pessoas que comumente gostam de julgar acham nos fetichistas seu alvo predileto. Portanto, se não nos cabe aceitar esse suposto complexo de vira-latas também não é factível achar que a submissão é o crepúsculo do BDSM.
Minha intenção não é plantar flor nos jardins das submissas com esse discurso e sim tentar estabelecer um critério que coloque as coisas em seus devidos lugares. Pode parecer redundante pra quem já é do meio, mas tem alcance em que pega senha pra entrar na roda. Até porque e pensando bem, como um bom bondagista não me toca a submissão feminina como condição básica pra minha prática. Concordam?
E ademais, enche o saco essa lengalenga de que submissa é isso ou aquilo.

Recebi um email hoje de alguém que anda flertando com o fetiche metendo o malho no marido por ter descoberto no sujeito ares de submissão e podolatria. A moça relata que o sujeito anda pirando com seus pés imundos e sua predileção é limpá-los com a língua de baixo pra cima, ou melhor, bem ao estilo submisso.
Ao responder que era normal e coisa e tal, ela me manda em réplica que não suporta mais tal atitude por considerar o cidadão um porco imundo.
Talvez ela dê atenção as minhas palavras ou

enxote o cara de sua vida pra sempre, vai saber. Na verdade, deveria aceitar a posição do marido percebendo que a submissão sexual em sua vida apareceu como uma simples opção, como a de tantos outros que a intolerância ainda insiste em esculachar.

Um bom final de semana a todos!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Completa Submissão


Hoje pela manhã fui ao dentista. Até aqui nada demais, todo mundo vai ao dentista ou a dentista, e por mais pavor que isso provoque em algumas pessoas é uma ação que se faz totalmente necessária.
Pois sentado naquela cadeira algumas reflexões fetichistas chegaram de mansinho. E como não poderia deixar de ser me senti um autêntico submisso sem qualquer reação diante dos fatos. Com uma sutil diferença; ele ou ela, os submissos, estariam ali por vontade própria, e eu, um simples bondagista estava por extrema necessidade.
E nessas horas o melhor a fazer é deixar a mente elaborar um plano. Claro, pensei no artigo de hoje e cá estou rascunhando essas linhas. Antes que me cheguem às pedras, quero de antemão me desculpar com a galera odontológica e dizer que tudo que se escreve aqui são devaneios, muito comuns nessa época de verão...
Pois voltando aos sonhos fetichistas naquela cadeira gélida e pouco confortável, lembrei de alguém. Sim, uma dentista. E de cara pude construir através da minha mente pervertida e libertina alguns sonhos que ela poderia protagonizar já que está diante de um sujeito com a boca escancarada sem ter direito sequer a balbuciar umas poucas palavras.
E como a conheço bem, imaginei seu sorriso sarcástico e dominante como senhora da situação. E pra piorar brother, me vi no papel de submisso máximo pronto para ser imolado.
E a mulher é grande...
E de repente ela manda levantar a cabeça e com um cinto prende meus pulsos naquela cadeira? Game over. Perdi feio. Dali por diante é ela com um sorriso de canto de boca e eu com a boca aberta olhando uma agulha e uma seringa. Surtei!
Nessa o dentista vinha com aquele ferrinho de futucar tudo e olhando a cara dele imaginei a moça olhando pra mim com aquele semblante mórbido e incisivo. Fechei os olhos e deixei a cena rolar. Futuca pra cá e pra lá e até aquele momento estava adorando que a porra daquele ferrinho estivesse somente nos dentes, porque se fosse ela e suas armações ilimitadas, estaria em apuros tal e qual donzela de filme de bondage.
Meus dias de bondagista dominante estavam contados...
Já nem olhava mais pra cara do dentista, que, aliás, é meu dentista e amigo há anos. O que vinha na mente era o delírio fetichista e a dentista com os olhos da Bette Davis. Tentei mudar o rumo da prosa e passei a tentar admitir que ela estivesse interessada numa cena de bondage das mais comuns, ou seja, eu ali entregue, imobilizado e ela com as mais indecentes perversões sexuais em mente. Mas nada, só conseguia imaginar aquela agulha filha da puta e um suposto beliscão com o boticão. Perdi pela segunda vez...
E em pensar que um dia brincando ela tinha me ameaçado dar um beliscão...
No entanto fiz prevalecer minha suprema condição de macho. E embora quase me borrando pensei nos amigos e amigas que sentem prazer com essas cenas e segurei a barra: se eles sobrevivem eu também sobreviverei, então vou suportar...

Mas nada... Começou a incomodar o dente real e eu nem ai para as perguntas do cara com o tal ferrinho na mão me perguntando se estava doendo. Imagina, nem um pouco, perto do que estaria acontecendo no delírio fetichista.
Por fim, o sujeito me disse que podia levantar.
E nesse exato instante me vi com a mente totalmente adormecida pelo que havia plasmado.
É nessas horas que se tem a absoluta certeza de que as fantasias e os fetiches são extremamente particulares. O que serve pra uns nem de longe dá certo pra outros, ainda que seja apenas em pensamentos.

Pois é, se ela ao menos tivesse somente pensado num bondage comum e numas torturas sexuais, talvez minha ida ao dentista tivesse sido mais agradável...
Talvez...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Submissão Ampla, Geral e Irrestrita


“Toda mulher gosta de apanhar. Só as neuróticas reagem”
Começar o texto de hoje citando Nelson Rodrigues tem uma razão. Pois que me perdoem as feministas, ativistas e outras “istas”, mas o assunto aqui é fetiche, para pessoas que gostam de fazer coisas diferentes enquanto praticam sexo.
E a matéria de hoje é dedicada às amigas submissas, todas, sem distinção. E gostar de apanhar não é apenas uma característica comum a todas as submissas, cada uma tem uma tendência particular, um algo mais que marca o prazer de servir e de pertencer de corpo e alma a alguém numa prática fetichista.
Meigas e atenciosas as submissas sempre encontram um jeitinho pra arrancar de seus donos o que mais lhes interessa, e não poupam esforços pra alcançar o seu ponto G dentro da relação.
Conheço muitas, já perdi a conta de tantas dessas mulheres maravilhosas que cruzaram e ainda cruzam meu caminho nessa estrada fetichista, por isso, aprendi a observar suas virtudes, até porque brother, pra mim é difícil achar defeito em mulher, embora possam existir.
A submissa cuida. Venera o dono através de textos cheios de metáforas ou poemas. Aceita dividir, assumir as chamadas “irmãs de coleira” e leva tudo numa boa, desde que seja assistida pelo dono sempre e quando tem necessidade. E essa necessidade acontece quase todo dia!
Por isso, existem donos de cabelo em pé, com uma, duas ou mais submissas sem tempo de cuidar do rebanho.
O que fazer nessas horas? Melhor pensar bem a esse respeito antes de enfiar os pés pelas mãos.
Portanto, o conceito de submissão é amplo e quem se arrisca nesse caminho deve saber onde ele começa e até onde pode levar.
Conversava hoje com uma pessoa a quem admiro e respeito demais. A “Lenka Somente” é daquelas submissas que carregam consigo todos os aspectos que compõem o significado da palavra submissão. Pra ela não há meio termo. É calça de veludo ou bunda de fora.
A metade do caminho pra Lenka não existe. A entrega pra ela é como uma necessidade básica, algo que ela pratica vinte quatro horas ao dia, mas todo dia, e atravessa um oceano em busca do que ela mesma chama de perfeição.
Ainda que os desejos sejam similares o comportamento das submissas é diferente. Talvez isso explique porque algumas trocam tanto de dono antes de formar a parceria correta, que atenda ao que se procura. A combinação D/S parece ser o resultado mais fácil da equação no universo fetichista, como café com leite, mas nem sempre as metades se casam de forma exata.
Dominar uma mulher numa cena de BDSM não é só deixá-la com a bunda roxa. É preciso preencher suas ânsias e antes de tentar moldá-la ao que o dominador planeja, saber do que é necessário para que seu desejo seja plenamente atendido. Assim ela poderá alcançar a tão desejada entrega que dela se espera neste tipo de relação.
A Lenka foi apenas um exemplo de submissão feminina total, assim como poderia citar outras amigas as quais consigo entendê-las pelo que escrevem. Elas têm o dom da conquista lenta, mais sórdida que uma severa atitude de um sádico, assim fazem por merecer o castigo.

Resumindo, a submissão é uma arte, como uma eficiente amarração de bondage. É preciso conceber antes de se arriscar a dar a primeira laçada. E todo cuidado é pouco porque elas conhecem o canto da sereia na ponta da língua e estão sempre ligadas no que gira em torno do BDSM.
Depois de devidamente enquadradas valem ouro, são como pedras preciosas a serem lapidadas e quando se entregam costumam aquecer até corações de gelo. A essas moças que habitam nosso underground toda a minha reverência e, de quebra, um belo tapa na bunda...

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A Saga Fetichista do Tristão


Mal se passaram seis dias do ano novo e já começam a chegar emails com casos fetichistas.
Escolhi este aqui pra falar primeiro.
A saga do Tristão. Isso mesmo, ele escolheu esse apelido porque define sua condição.
Não bastasse ter que realizar seu fetiche às escondidas, na clandestinidade, nosso convidado de hoje achou espaço para suas aventuras submissas onde jamais imaginou um dia encontrar.
Por um desses acasos da vida, Tristão vive seu fetiche nas mãos de uma dominadora cruel que é nada mais nada menos a sua sogra. Acreditem, é sério, e há testemunhas.
Mas não pensem que essa relação fetichista começou em família, dentro da própria casa.
O destino resolveu ser implacável e tratou de cruzar as linhas.
Bem casado e com filhos, netos de sua dona, Tristão guardava a sete chaves o segredo de ser dominado por uma mulher com a experiência necessária para lhe conduzir ao nirvana. Freqüentador assíduo de salas de bate papo, num dia qualquer alguém resolveu responder aos seus anseios. A mulher se mostrou firme, decidida, do jeito que ele almejava. Declarou-se mais velha, exibiu capacidade e conhecimento que lhe ajudou na caminhada pelo universo fetichista, ainda que de maneira totalmente virtual.
Cumpridor das tarefas que lhe eram passadas por sua propensa dominatrix, Tristão foi agraciado com a possibilidade de vir a ter com ela um contato fora da tela do computador. Seria a primeira experiência fetichista real de um homem que já havia ultrapassado a casa dos trinta.
Tristão conta que seu fetiche ficou guardado por muito tempo antes dessa aventura. Nunca ousou praticar, por timidez e por medo. Ao mesmo tempo sabia que já havia passado da hora de tentar realizar seu sonho fetichista ainda que isso fosse acontecer numa relação extraconjugal. Não admitia pagar uma dominadora profissional com o intuito de preservar sua integridade familiar. Queria que a entrega fosse de forma viva e definitiva, por isso, estava decidido a exorcizar todos os fantasmas possíveis assumindo todos os riscos provenientes de tal atitude.
Quando da aproximação do encontro resolveram se revelar. Precisavam desvendar seus rostos, tinham um encontro marcado. Decidiram que os emails deveriam ser trocados ao mesmo tempo, assim um saberia do outro de forma instantânea para que não houvesse surpresas. Ao abrirem a caixa de correios eletrônicos emudeceram por dias, semanas.
Um dia sua mulher resolveu convidá-lo para almoçar na casa da sua mãe. Tristão inventou todas as desculpas e nada colou. Com medo de que sua mulher desconfiasse (é incrível, mas é fato, porque toda vez que escondemos alguma coisa fica a impressão que todos ao redor suspeitam de algo), acabou por aceitar.
Ressabiado ante a presença da sogra ao lado do marido, Tristão foi chamado por ela para uma conversa a sós. Todos sorriram imaginando que se tratava de uma conversa sobre o casamento ou um segredinho banal qualquer, mas para sua surpresa, imediatamente ao chegar ao quarto da mãe de sua esposa, recebeu a primeira ordem fora do campo virtual: “ajoelhe e beije meus pés, capacho imundo!”.

“The Resort” na Mídia

Um presente aos amigos e amigas.
O trecho do programa Penetra do Canal Sexy Hot com a entrevista que tive o prazer de conceder a bela Rossana, apresentadora, com a não menos bela Terps ao meu lado, quando do lançamento do filme “The Resort”, em Julho do ano passado.
Prestem atenção na Terps. Ela é verdadeira demais!
Um novo longa metragem, como foi prometido, está saindo do papel com novidades pra lá de interessantes. Qualquer dia eu conto tudo, mas por enquanto, fica o registro do filme que é sucesso de vendas e crítica.


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A Equação Submissão x Travestismo


Dizem que o que se repete muitas vezes acaba se tornando verdade.
Não é de hoje que leio a respeito de travestis que assumem ser submissos. Se é um fato eu não posso afirmar, mas por outro lado, algumas evidências e depoimentos não podem ser ignorados.
Mickey é um travesti e fetichista. Faz parte da minha lista de amigos no Fetlife.
Vive em East Sussex, uma localidade distante noventa quilômetros de Londres. Em seu perfil conta um pouco da sua vida e, principalmente fala sobre a sua relação com o fetiche. Fotos e palavras explicam um pouco disso tudo. Confiram.
“Eu sou um travesti e uma escrava submissa.
Sim, sou eu na foto. Eu sou bissexual, assumido, feminina, descontraída, romântica, mocinha em apuros, ainda que seja um travesti. Eu adoro abraços, beijos e vincilagnia (jogos de bondage). Mantenho as unhas muito bem pintadas, sobrancelhas feitas e conservo a pele lisa, o que me ajuda a conseguir minha aparência feminina ideal.
Eu era um menino de aproximadamente sete anos quando eu descobri as maravilhas de usar roupas femininas e os prazeres de ser amarrado, amordaçado e ficar impotente.
Vestida como uma mulher, amarrada e amordaçada passou a ser a razão da minha existência. É por isso que eu acredito que o travesti, em sua grande maioria, tem prazer pela submissão e quase afirmo isso por ver tantos travestis desfrutando do fetiche de bondage.
Bons amigos são o meu bem mais valioso, especialmente quando eles me amordaçam e amarram com as minhas mãos atrás das costas. Eu amo a privação sensorial e passeio pelo espaço quando uso plugue auditivo, sou amordaçada, encapuzada e encapsulada em um dos meus sleepsacks (sacos de dormir).”
Mickey assume sua condição homossexual e fetichista sem problemas. Não esconde nada e tem milhares de fotografias espalhadas por várias redes sociais na Internet. Exibicionista? Talvez, ou orgulhosa de sua escolha.
Por aqui alguns depoimentos vão ao encontro desta tese.
Em março passado produzi um ensaio a pedido de um travesti. A Larissa me disse que queria fazer um ensaio amarrada. Aceitei o desafio de amarrar um transexual pela primeira vez, presenteei e guardei as fotos que me fez sentir bem por ter ajudado a realizar uma fantasia.
Claro que fiquei curioso e quis saber o porquê das fotografias. Curiosamente as razões apresentadas foram idênticas as relatadas pela Mickey em seu perfil. E olha que existe um oceano entre as duas e milhas e milhas de distância.
Larissa não assumiu a submissão total e irrestrita, mas confessou-se atraída por ficar indefesa e vulnerável diante do parceiro durante o sexo. Disse que dessa forma, se sentia mais feminina e o fato de parecer em apuros, assim como Mickey, a fazia extravasar um desejo que vinha desde a infância.
O resultado da equação submissão e travestismo pode não ter um valor final igual a cem por cento. A regra aqui permite exceções e há de existir travestis com tendências dominantes. Prefiro ficar com a idéia de uma tremenda coincidência entre esses dois exemplos.

Entretanto, segundo um amigo dominador, realizar o fetiche com travestis é a garantia de ter a submissão garantida. Afirma que nunca errou na escolha e nas vezes que apresentou o fetiche foi plenamente atendido, com um índice de satisfação total.
Quando perguntei sobre a sua suposta homossexualidade ele foi categórico: não há sexo, só fetiches. Na hora, imagino que estou diante de uma mulher, daí rola fácil.
Vale esclarecer que os travestis a quem meu amigo se refere praticam prostituição.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O Doutor Palhares


Preocupada por ter um incrível instinto de submissa, uma amiga resolveu dar ouvidos a algumas pessoas e procurou um analista. Uma velha colega de Faculdade recomendou um terapeuta formado em psiquiatria, Dr. Mancebo Palhares.
Após o fim de seu relacionamento com um fetichista de tendências totalmente dominantes, ela se viu em palpos de aranha para conseguir se firmar noutra relação. Contou que o fetiche lhe fazia tanta falta que chegava ao cumulo de se auto-flagelar durante o ato sexual com seu novo parceiro às escondidas, sem que o cidadão pudesse notar. Buscava na dor o prazer que não tinha nas noites mal resolvidas.
Mínimos detalhes eram relatados com extrema riqueza e devidamente anotados pelo Dr. Palhares que prestava bastante atenção ao que sua paciente dizia. Ouvia e perguntava, principalmente sobre seu relacionamento passado.
Minha amiga estava feliz com as consultas. Tinha no analista um aliado confidente e aquela altura conseguia entender a razão de sua submissão total e sobre sentir prazer com a dor. Convencida de seu masoquismo extremo restava encontrar um novo parceiro que a levasse de volta ao caminho do qual se perdera.
Passou então as práticas solitárias. Através de relatos colhidos pela Internet experimentou sessões secretas que terminavam em marcas profundas e longas masturbações finalizadas com orgasmos intensos. Faltava-lhe, porém a relação carnal, a chamada coisa de pele, o sabor e o cheiro do macho dominador para se sentir completa.
Tentou daqui e dali, mas não apareceu nada que fosse capaz de mudar o panorama.
No final de uma das rotineiras consultas, recebeu do Doutor Palhares o convite para uma conversa fora do ambiente médico-paciente. A confiança era tanta que sequer pestanejou em aceitar tomar uma bebida e ampliar seus horizontes.
Livre das formalidades e da conduta de ética necessária a qualquer profissional, o Doutor Palhares procurou aprofundar o papo fetichista e minha amiga viu-se diante de alguns conselhos ousados, que soavam como experiências de quem tinha amplo conhecimento do assunto.
Não foi difícil perceber a certa altura que o Doutor Mancebo Palhares era um fetichista.
E além de fetichista possuía as mesmas tendências submissas da minha amiga e há um bom tempo convivia com a procura de uma dominadora que pudesse realizar seus desejos.
Ela a principio foi obrigada a assumir o impacto que a revelação lhe causou, mas aos poucos foi entrando na roda e descobriu que daquela forma se sentia bem melhor em discutir seus problemas. Estava diante do “ombro amigo” que tanto lhe faltava, embora tivesse sido providencial as sessões de análise a que fora submetida.

Tronaram-se amigos confidentes a ponto de dividir as angustias e desejos secretos de uma mesma maneira. As consultas terminaram e nas conversas telefônicas, via email ou pessoais, contavam histórias recentes de encontros ou desencontros, além de se divertirem bastante com relatos mútuos de cenas solitárias que experimentavam toda vez que se sentiam sozinhos.
Um dia uma dominadora chegou de outra cidade para um evento e levou com ela o coração do Doutor Palhares. Os encontros ficaram raros e aos poucos desapareceram.
Minha amiga contou que continuou recebendo mensagens do ex-analista onde pedia noticias, mostrava-se preocupado com ela e falava de sua relação cada vez mais sólida e intensa.
Confessou que sentiu ciúmes no começo, embora no fundo do ego desejasse ao amigo toda a felicidade do mundo. Lamenta até hoje que uma amizade sincera e sadia tenha terminado da forma que eles mesmos previam, nos tantos chopinhos de fim de tarde na praia do Leblon.
Vida que segue...
E ela ainda está à procura de seu par perfeito.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Atrás da Cortina de Ferro


Ele, um executivo de sucesso, absoluto em sua profissão.
Ela, a voz ativa em seu negócio, comandando com mão firme e braço forte centenas de homens e mulheres.
Por detrás da armadura que emoldura seus atos profissionais, os dois guardam a sete chaves segredos escondidos como nos tempos da cortina de ferro. Por incrível que pareça, a submissão e a fragilidade norteiam seus pensamentos sexuais criando diversos fetiches impossíveis de serem revelados no mundo que os cerca.
Embora possa existir um elo entre a posição sócio profissional de ambos com a veia fetichista, em meu ponto de vista são duas situações totalmente independentes, indicando uma simples coincidência de fatos. O exemplo da submissão sexual como forma de viver vidas alternadas não cola, senão como explicar pessoas com tendências submissas em cargos e posições sociais num escalão inferior?
Não é necessário ser um “top” no trabalho para gostar de submissão sexual.
Entretanto, deve ser levado em conta o que essas próprias pessoas pensam, principalmente quando associam os dois lados, como se buscassem uma explicação pessoal para seu tesão, além é claro, de uma grande parte de analistas que seguem a mesma linha de raciocínio.
Dominadoras profissionais da Europa apostam nesse filão e afirmam que sua “clientela” é composta por executivos de grandes empresas, políticos e empresários bem sucedidos. Declaram que açoitam famosos e que recebem altas somas por sessões secretas em mansões com dungeons repletos de aparelhos de tortura mantendo sigilo total dessas atividades.
Diante desse quadro seria sensato dizer que o fetiche escolhe classes sociais e está relegado a uma casta que pode pagar por esse “serviço”?
Não, mas não se pode negar que fica, pelo menos, mais acessível, da mesma forma que para esta gente burguesa o fetiche não é efêmero, e tão pouco funciona como um castigo por se achar pedante e soberbo em suas atividades de liderança. Ele veste estas pessoas como uma roupa de gala, que mesmo de vez em quando, precisa sair do armário.
Com ou sem dinheiro no bolso gostar de determinados fetiches é comum para quem tem esse “imput” dentro do peito e procura a prática para obter prazer. Apenas é uma questão de possibilidade, como uma pessoa pegar um ônibus na Baixada Fluminense para ir a uma festa em Copacabana enquanto outras podem ir de automóvel.
É importante admitir o seguinte: é inegável que se o “Zé das Couves” for pego levando um monte de bordoadas no lombo num motel de segunda categoria ninguém vai se importar, porém se um Senador for flagrado pelado numa sessão de trampling comandada por uma linda mulher de preto vira manchete em todos os jornais...
Falar da vida alheia nesse mundo é realmente um grande negócio!
O aparecimento da Internet possibilitou que fetichistas de todas as classes enveredassem por um universo próprio, usando pseudônimos, extraindo e dividindo experiências vividas ou não, verdades e mentiras, em plena sintonia sem qualquer tipo de divisão.

Cada um conta a sua história, vive seu conto de fadas sem preconceitos, buscando essa troca no anonimato sem ferir ou incomodar ninguém. Procuram partilhar o que pensam num lugar onde a classe social é o que menos importa num primeiro contato.
A regra é simples: tomar cuidado com o terreno onde pisa, obter confiança e credibilidade onde a troca se processa, evitando machucar ou se ferir.
Daí em diante mistura-se famosos e ilustres desconhecidos, porque afinal, somos todos farinha do mesmo saco.
Quem sabe um dia você possa dizer ainda que pra si mesmo: minha chefe é uma fera no trabalho, me come de esporro o dia inteiro, mas quando vem pra minha cama ela é mais frágil que um vaso de porcelana chinesa...
Essa é a química.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Leilão


Ela queria uma cena assim:
Acorrentada no pescoço até os punhos com um vestido branco maltratado, cabeça baixa no centro de uma sala decorada com móveis antigos, vários homens ao redor fumando longos charutos que duelariam para tê-la através do lance mais alto.
Despertaria a inveja das mulheres ao redor, sem importar se estavam acompanhando os arrematadores ou faziam parte do leilão. A submissão forçada, comprada para servir, sem direito a nada apenas a entrega plena e absoluta.
Esse conto, sem direito a um herói de última hora, é uma fantasia assim como tantas que temos ao longo da vida. Não importa quantos coadjuvantes sejam necessários para projetar a cena de forma perfeita, porque ela jamais sairá do mundo imaginário.
Por isso é importante aprender a “resumir” nossos sonhos para que exista a possibilidade de tornarem-se realidade. De que adianta ter dez mulheres amarradas na minha cama ao mesmo tempo se não posso dar conta? Haja Viagra...
As correntes, o vestido, até o local dá-se um jeito e os caras com os charutos não é tão complicado de arranjar, e de repente um leilão pode acontecer na prática desde que as condições sejam previamente combinadas entre os participantes.
A fantasia nada tem a ver com leilão de escravos que ocorrem em festas fetichistas. Precisa ser elaborada de tal forma a realizar o desejo de quem é objeto do leilão, assim como em histórias de escravas brancas. O arremate pode ser por um dia, um final de semana, fica a critério.
Mas essa receita tem alguns ingredientes bastante interessantes. Por exemplo, o fato de a submissão ser o centro das atenções, afinal ela é objeto de desejo pronta para ser devorada pelo dominador que der o melhor lance.
Pensando nessa fantasia, aliás, uma dica e tanto. Peguei um enredo bem bolado do Carlos criei o vídeo “White Slavery” e vamos exibir no próximo final de semana no Bound Brazil.
Um misto de historias medievais e atuais onde mulheres são negociadas para países da Europa como mercadoria.
Mas isso fica para a matéria de Sexta.

AS MELHORES DE 2009

Sexo, Bondage e Rock & Roll.
Numa noite de outono a musica trouxe tempos distantes onde pude enxergar o fetiche na juventude em meio a incertezas.

“Me lembro, era primavera de setenta e seis. Meu último ano do antigo clássico hoje segundo grau, inesquecível, mesmo porque no verão seguinte a bosta do vestibular era calça de veludo ou bunda de fora... Nessa época pintou a Kátia, bonita, culta com aquele ar de papo cabeça, cheia de “não me toques”, e como diria Tião Macalé: “ô crioula difícil”... Mas mesmo assim eu queria porque queria, e aquela bela garotinha de cabelos castanhos claro, de sardinhas nos ombros, recém chegada aos dezoito assim como eu, ex-miss piscina de um clube da zona sul era o nirvana. Desistir, nem pensar. Passava noites em claro com o mastro da bandeira (!) envernizado pensando nela e toma Led Zeppelin na orelha para abaixar o facho! Mas a bateria do Bonham aumentava os batimentos cardíacos funcionando como um energético na veia, e eu sonhava com ela e com um novelo de cordas. Nos meus delírios já havia inventado umas trezentas posições de bondage e acho até que foi meu grande aprendizado platônico... Leia mais

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A Vida, o Fetiche e a Sophia


Nasci sob o signo de gêmeos, num Domingo de lua cheia dia de jogo do Brasil na Copa do Mundo de cinqüenta e oito.
Claro que não me lembro quando abri os olhos, mas dentre as lembranças que trago da infância uma delas me remonta à primeira cena fetichista. E olha que estou no lucro já tendo cruzado a barreira da metade de um século.
Só agradeço não terem me levado na primeira rezadeira da esquina para tirar os demônios de dentro de mim, porque ninguém imagina um menino adorar os vilões e vibrar com eles em todas as cenas que me deixavam com os olhos vidrados.
Lembro vagamente de um dia com um cinto amarrar os braços da empregada de casa, Marly, imitando as cenas em que os índios amarravam as mocinhas nas séries em preto e branco da TV. E foi aí Zé que tudo começou.
Portanto, o fetiche vem do útero jamais do berço e está dentro de nós desde que respiramos o primeiro sopro de ar poluído desse planeta.
Vieram os sonhos, delírios, até a adolescência quando já cansado das brincadeiras infantis de policia e ladrão, quando era inevitável tirar umas casquinhas das coleguinhas aprisionadas, é possível começar a articular idéias e por em prática os tais “pensamentos obscenos” que a ordem político-religiosa nos impõe.
As coisas começaram a ficar mais sérias e geralmente terminavam em gloriosas trepadas solitárias durante o banho onde era possível comer toda e qualquer garota bem amarrada, e detalhe, sem pedir nenhuma permissão para isso.
Nascem então às primeiras experiências de bondage através das gostosas brincadeiras a dois. Assim como bondage, qualquer outro fetiche segue a mesma regra tendo como ponto de partida e as primeiras ebulições esses contatos infanto-juvenis.
Por isso Sophia, podem sim existir fantasias de bondage sem necessariamente haver contato sexual, e claro, o aprimoramento dessas cenas que montamos como um grande teatro entre quatro paredes, vem com o tempo, passando pelos tabus da virgindade até a utilização de pequenos aparelhinhos estimulantes.
E como tirar proveito e prazer desses pequenos espasmos de fantasia?
Elementar minha cara, porque uma pequena gota de prazer para um fetichista é como time pequeno empatar com um grande, ou seja, festa na cidade e cerveja liberada.
Só existe a possibilidade de alcançar experiência se houver um desenvolvimento adequado e as barreiras forem rompidas em seu devido tempo, com confiança e astúcia. E isso é regra básica para evoluir, sem ansiedade, porque doses homeopáticas sempre foi um excelente remédio. Quem quer tudo ao mesmo tempo, abraçar o mundo com as pernas, acaba se perdendo num universo tão grande onde o conhecimento de cada passo se obtém com o tempo, e nada mais.
É preciso ter a noção que nascer com o fetiche na veia nos faz aproximar dessa atmosfera, mas se não houver conhecimento do terreno o qual se pisa, vira areia movediça, fácil de afundar.
Para começar toda e qualquer experiência de bondage em primeiro lugar há que existir confiança total a quem você está se submetendo, porque uma vez imobilizada a chance de dar merda é muito grande. Depois das primeiras sessões será plenamente possível perceber até onde caminhar e por qual lado seguir, carícias e estímulos, podolatria, castigo com cordas, submissão, e tantos outros que vão aflorar na medida em que o rio siga seu curso sem nenhuma queda brusca que te faça afastar de um destino que você tanto deseja seguir.
O fetiche pode chegar antes do envolvimento sexual, sempre, desde que haja comprometimento consensual para que isso seja respeitado.
Nem sempre encontramos o fetiche ainda na infância, às vezes até o renegamos e nos sentimos como estranhos no ninho, mas um dia de tanto insistir ele aparece com força e nos toma de assalto, é nessas horas que precisamos estar preparados para começar essa viagem maravilhosa.

Crédito da Foto: Sophia em bondage por suspensão na ultima festa Fetixe.