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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Dama da Zona


Era uma cidade do interior e bem perto da estrada que levava rumo à capital havia uma Zona de Meretrício.
Três amigos resolveram um dia afogar as mágoas no bordel, mas antes pararam num boteco para tomar uma cerveja já que o preço era dobrado no destino final. Daí conversa vai, conversa vem um deles, visitante, vindo da capital com novas idéias se declarou fetichista.
Risos, perplexidade, a isso seguiram perguntas inevitáveis que o fetichista, já declarado, nem pestanejou em responder. “Você vai pagar cinqüenta pratas pra levar uns tapas e beijar os pés da mulher? “.
Se houvesse a possibilidade não sobrava duvidas de que pagaria até o dobro ou mais, porém restava a incerteza cruel e incomoda de achar um bom fetiche naquele casebre de beira de estrada. Partiram.
Cada bordel tem sua peculiaridade, mas o ambiente escuro, quase sempre com um tom avermelhado é de praxe. Na jukebox baladas românticas que fazem as meninas lembrar de amores perdidos, viajar na melodia a procura de sonhos impossíveis, bebidas, pouca roupa e meia dúzia de caminhoneiros famintos. Aliás, por que caminhoneiro gosta tanto de bordel?
Seus dois amigos anfitriões mostravam-se conhecidos naquela Zona e logo buscaram deixar o fetichista embaraçado quando a primeira mulher sentou à mesa para dar as boas vindas. De cara, o fetichista foi devidamente enquadrado como aberração e passou a ter o desdenho da moça antes solícita.
“Tem a Daisy, ela já comentou comigo algumas coisas desse tipo, mas só falando com ela”. Sorriu e se foi...
Daisy era uma mulher madura na casa dos quarenta. Longos cabelos loiros fabricados pela farmácia mais próxima, unhas compridas pintadas em tom forte e com mais de vinte anos de experiência atestados em casas de tolerância.
A mulher chegou e não causou tanto entusiasmo no fetichista, afinal se vestia como as outras e se comportava igual, bebendo, sorrindo, beijando todos os homens como velhos amigos sem demonstrar-se a tão esperada rainha de copas que o cara ansiava.
Uma vez a sós, tocou-lhe de leve o braço e em tom forte perguntou sobre o que ele estava procurando naquele lugar. Desajeitado e com medo de se expor ainda mais ao ridículo, o sujeito comeu pelas beiradas deixando escapar pequenas gotas de um assunto que deveria ser direto.

Mas aquela Dama era experiente e sentiu que o gelo no olhar e o ar cabisbaixo queriam perguntar coisas estranhas àquele mundo onde ele estava de passagem. Tomou-lhe pela mão, o fez pagar o programa e subiu através de uma escada de madeira e estreita para um quarto de pouco conforto com apenas uma pia pequena para higiene.
A música vinha do salão em baixo. O local era limpo, porém com aspecto nebuloso devido a pouca luz. Nada além de uma cama com um colchão imperfeito e uma velha cadeira onde a roupa foi estendida.
Ela pediu licença, mandou que tirasse a roupa enquanto iria se trocar.
Foram longos e intermináveis minutos até que a mulher voltou trajando uma lingerie negra que lhe cabia bem, batom vermelho nos lábios, perfume forte e um belo salto.
O cara tremeu na base quando ela sentou na beira da cama, bem em frente à cadeira onde o fetichista incrédulo assistia a tudo passivo e espantado com a proximidade de realizar sua fantasia onde sequer havia sonhado.
Ordenado a ficar de joelhos perante sua rainha, chegou bem próximo a ela que com voz firme ordenou:
“Acenda meu cigarro!”.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

La Belle de Jour (A Bela da Tarde – 1967)



O cineasta Luis Buñuel construiu um filme baseado num enredo muitas vezes utilizado que fala da infelicidade de uma mulher rica, com um casamento monótono e, por isso, parte em busca de aventuras prazerosas dentro de um bordel.
Num cenário tipicamente francês dos anos sessenta, Buñuel conta no elenco com a beleza estonteante de Catherine Deneuve e um ótimo time de coadjuvantes, passeia por várias situações de envolvimento dentro da relação cliente-prostituta onde ficam evidentes práticas de submissão e dominação no discreto local de encontros.
Até o aparecimento de um delinqüente que transtorna sua vida, Séverine interpretada por Deneuve consegue desenvolver sua dupla personalidade adquirida dentro de suas aventuras, descobre o prazer que o marido é incapaz de lhe dar e deixa-se levar por um caminho sem volta.
O filme foi aclamado por público e critica da época e até hoje é visto como um clássico do cinema francês e mundial, e no quesito fetichista reproduziu com firmeza e riqueza de detalhes alguns aspectos que conotam as estreitas relações produzidas em locais secretos, quando o fetiche era visto com pouca cordialidade apesar de praticado numa sociedade culturalmente evoluída como a Européia.
Com destaque para as cenas em que Séverine se nega a participar como dominadora de um dos clientes do bordel no início de suas aparições como prostituta, enquanto observa por um tipo de olho mágico de segurança uma “colega” de trabalho subjugando um cliente submisso e, para a parte em que é amarrada e conduzida a uma relação sexual,
na verdade o filme mostra cada personagem dentro da mesma ótica, numa linguagem comum e não procura em momento algum vivenciar seus dramas pessoais, até mesmo da protagonista que resolve trabalhar pela primeira vez na vida mesmo sendo de duas às cinco da tarde.
Os clientes do bordel e seus fetiches são retratados sem censura, com o respeito devido e ensaia a identificação de Deneuve com fatos os quais nunca havia tido o menor contato e conhecimento.
Vale à pena aproveitar esse lançamento em versão digital remasterizada que pode ser encontrado com facilidade em várias locadoras ou para a venda.
Posto uma seqüência de submissão já mencionada aqui na matéria para dar destaque a esse filme tido como o mais conhecido da obra de Luis Buñuel, ganhador do Leão de Ouro do Festival de Veneza.
La Belle de Jour Submission Scenes