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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Antibucetário


Dizem que é uma neurose.
Outros apostam em timidez, medo, traumas, coisas que as pessoas arrastam pela vida e eclode na idade adulta. É fundamental a exclusão dos homossexuais.
Estamos falando da famosa “xotofobia”, ou no popular “medo de buceta”.
Mas isso não é um fetiche. Claro que não, mas existem casos onde o fetiche também contribui. Quer um exemplo?
Manel é podólatra. Daqueles loucos, fascinados por pés. Detalhista, chega a ser uma mala sem alça de tanto procurar uma perfeição que só existe dentro de seu próprio pensamento.
Se diz incapaz de esconder seus desejos perante a parceira e não mede esforços ou conseqüências para chegar ao objetivo. A sua cena perfeita é quando sua parceira usa sapatos fechados durante todo o dia, e ao chegar em casa, nem ouse em descalçá-los, porque ele faz absoluta questão de guardar as meias de nylon usadas dentro de um pequeno saco plástico para conservar o aroma dos sapatos.
Depois de retirados os sapatos, Manel pede que ela coloque uma linda sandália de salto tipo agulha para começar qualquer relação. Exigente ao extremo gosta de repetir o ritual diariamente e se mostra egoísta, sempre, pois realiza sua fantasia sem dar qualquer chance a sua parceira de ser coadjuvante.
Ele explica: “não divido o sexo. Costumo realizar o fetiche de foot job, ou seja, transo com seus pés. Beijo, adoro, faço carícias e cheiro até atingir o gozo. Contra a minha vontade, admito ter relações sexuais com ela ao menos uma vez por semana, e assim mesmo de forma obrigatória. O formato e o cheiro da vagina me causam desconforto”.
Este fetichista, um nobre cidadão respeitável, é um antibucetário.
Não costumo julgar, acho que cada um tem direito a ter seus próprios devaneios. No caso do Manel fica nítido que a fantasia não é compartilhada, ele coloca as cartas na mesa e ela aceita o jogo ou não, pelo menos é o que fica evidente neste relato. Quando ele diz que “aceita ter relações sexuais uma vez na semana” deixa claro que a vagina passa ao largo de sua preferência.
E vai além. Não suporta a introdução de qualquer outra manifestação fetichista em suas brincadeiras. Cordas, algemas, velas ou trampling, nada disso faz parte de sua fantasia. Ele gosta do desenho dos pés, do tratamento que a mulher dispensa para deixá-los sempre a seu gosto e de calçados. Faz questão absoluta de escolher tudo que a sua parceira usa para colocar nos pés.
Vivendo e aprendendo.
O universo fetichista é acima de tudo surpreendente. Quando se supõe saber de todas as taras e manias novos desejos aparecem do nada. E o Manel não é o primeiro que me fala sobre isso.

Tive um amigo que contratava prostitutas para fazer dangling à sua frente. Dangling é o movimento que a mulher realiza calçando e descalçando os sapatos. Jamais admitiu que elas tirassem uma peça do vestuário e sequer tocava-lhes nos pés. A masturbação era farta, não era solitária, e as mulheres em poses pré-contratadas apenas lhe provocavam com o balanço dos sapatos.
Confesso que há certa incoerência nestes fatos porque a inclusão do sexo oposto funciona somente como um objeto, uma figura inanimada sem direito a participar. Imaginar que alguém concorde com tais atitudes é difícil, porém não é impossível, já que na vida desses fetichistas existe sempre uma parceira.
Sou um fetichista confesso e assumido, mas dentre todas as minhas manias e preferência o órgão sexual feminino é parte importante e, sem ele, o fetiche não teria o menor sentido, afinal, como bem se diz por aí, tudo tem que acabar de maneira que agrade a gregos e “troianas”.